Não devo ser só eu que acho o dia das mulheres um acinte
Ou sou?
Para mim, o Dia da Mulher é uma esmolinha como o Dia do Consciência Negra, o Dia do Índio e falsas homenagens correlatas. Eu acho que quando as mulheres fazem festa pelo dia 8 de março (coitadinhas, tem gente que se satisfaz com tão pouco…) estão dando toda razão para aquela piadinha que diz que não existe Dia Internacional do Homem porque todos os outros são deles.
Isso me faz lembrar quando eu ainda estava na Puc e surgiu o jornalzinho “O Indivíduo”, que logo no primeiro número (e, até onde eu sei, o último impresso) causou um puta barulho se manifestando contra o Dia da Consciência Negra e a semana da Consciência Negra, então uma reunião de eventos barulhentos (e para muitos que não se manifestavam, gratuitos) no Pilotis da Puc.
O texto era sensato. E mesmo que não fosse (como o outro texto da mesma edição, que dizia que homossexualidade é desvio de conduta, anormalidade ou algo que o valha), o editorial do jornal explicava claramente que se tratava de um jornal de opiniões. E não de afirmações corretas acima do bem e do mal. E que eles estavam chamando o debate.
Pois bem, parece que as pessoas não estão acostumadas a usar de argumentos, desses que podem ser rebatidos com outros argumentos, e já no primeiro parágrafo do texto a legião de não-argumentadores jogou o jornal na fogueira (em vez de tentar compreendê-lo) e saiu por aí, aos berros e guinchos, chamando o autor de racista. Afinal, quem consegue argumentar contra gritos??
Bom, o resultado foi que o jornal sumiu, os caras tiveram seus 15 minutos de fama devem ter angariado o ódio de alguns e com certeza comeram algumas meninas (ou meninos, afinal, eu por princípio sempre questiono a heterossexualidade de qualquer ente homofóbico) sedentas por “intelectuais malditos”, raça cada vez mais numerosa (tanto os “intelectuais malditos” quanto suas groupies se multiplicam como hamsters).
Bom, oquei. Me desviei do assunto.
Voltando. Como dizia antes, aceitar o Dia da Mulher e praticamente agradecer que ele exista é uma atitude mais submissa do que fazer vista grossa às traições do marido, lavar a louça e as roupas depois de chegar do trabalho e fazer sexo por obrigação. Tudo junto. O Dia da Mulher é uma esmola. E ninguém consegue respeito aceitando esmolas.
Mas não quero me estender aqui sobre o assunto “igualdade entre os sexos” X “equilíbrio entre os sexos”. Porque, afinal, não tenho nenhuma dúvida de que mulheres e homens são diferentes, e que isso inclui vantagens e desvatagens para todo mundo. Tirando a inveja que eu tenho de os homens poderem fazer xixi em pé e serem menos visados por assaltantes, o resto para mim está na boa. Nunca ninguém vai engravidar de mim sem que eu saiba, nem poderão abortar um filho meu sem meu consentimento. Eu não posso broxar, aprendo outras línguas mais rápido e etc etc. No final de contas, está tudo equilibrado. Pelo menos para mim.
Quer dizer, mulheres ainda ganham menos do que os homens nos mesmos cargos. Mas eu tou fazendo o que posso para que isso melhore…
Março 8th, 2006 at 10:18 am
Parabenizo o/a autor/a do escrito: “Não devo ser só eu que acho o dia das mulheres um acinte”, pois vejo a necessidade de questionarmos as idéias que simplesmente são jogadas na sociedade. A discriminação ocorre na maioria das vezes por responsabilidade dos próprios indivíduos que são discriminados, alimentando essa idéia.
Entendo que a necessidade de crescimento somente se fará com harmonia, e não é o que vejo atualmente a sociedade faz com as disputas dos sexos atualmente. Vamos quebrar as algemas.
Março 12th, 2004 at 9:39 pm
Permita-me compartilhar o que escrevi sobre a data recentemente:
"Dia internacional da mulher
"Faz-me lembrar o dia da consciência negra. Datas que sempre deixam no ar a pergunta oposta: e o dia internacional do homem? E o dia da consciência branca ou amarela ou vermelha?
"Fico admirado quando penso que tais datas — em que se prestam homenagens a parcelas da população do mundo — são muito mais valorizadas do que aquelas dedicadas aos elos que impedem que nós nos separemos definitivamente.
"O que é, por exemplo, o Dia da Confraternização Universal (1º de janeiro) senão um dia de curar ressaca? É mais ou menos essa a moral das datas dedicadas a parcelas da população: a união dos povos é um porre."
Março 11th, 2004 at 12:28 pm
concordo com vc. acho patético a maioria das mulheres se sentirem felizes por ganhar um ‘parabéns’ e uma rosinha no dia 8 de março.
Março 10th, 2004 at 1:06 am
Concordo contigo e eh muito bom achar alguem que pense assim tb. Eu nao acredito em dia internacional da mulher, acho um preconceito. E logico que tem o lado bizarro: na segunda, perto de 18h, uma legiao de mulheres com 1 rosa cada, esperando o onibus na Cinelandia. No minimo curioso.
Março 9th, 2004 at 11:09 pm
Também somos 73% dos desempregados brasileiros e estupro só dá em alguma coisa se você der queixa e mantiver a queixa… mas… muita coisa já melhorou, e, mesmo que nao tivesse melhorado, o dia em questão é tão imbecil quanto dia da consciência negra - isso é coisa pra se lutar contra o ano inteiro, e não um dia específico. Beleza homenagear as quase duzentas operárias queimadas vivas em 1800 e bolinha por ousarem exigir salários iguais aos dos homens, mas não acho que seja "o dia" único de discutir isso…. enfim… mil coisas.
Março 9th, 2004 at 1:17 am
quando eu começo a ficar irritada com o dia internacional da mulher (quando eu ouço uma propaganta estúpida como a do xsara piccaso que passa na rádio eldorado aqui em sampa, ou toda vez que me surpreendo quando alguém me dá parabéns nesse dia)… então, quando isso acontece, eu lembro das pobres que morreram incendiadas nesse mesmo dia, há muitas décadas. daí eu fico com a impressão de que não é uma data atual, mas um lembrete de que as coisas já foram diferentes, e que talvez seja preciso continuar se esforçando para torna-las cada vez mais iguais.
Março 8th, 2004 at 4:50 pm
Na mesma linha… Uma pergunta que me faço sempre que ouço falar no assunto: Quer coisa mais racista do que, por exemplo, a tal "Cota de vagas para negros nas universidades"?
O erro não estaria na educação pública básica? No processo "seletivo" (vestibular)? Acham mesmo que garantindo umas vagas a situação deles vai melhorar? Que por exemplo, vão deixar de ser revistados nos ônibus? Sei não…
Março 8th, 2004 at 2:58 pm
Você pode achar que o jogo mulher - homem esteja equilibrado, Barbara, mas talvez os negros achem que ter pau grande e talento pra tocar tambor seja pouco pra compensar o fato de serem revistados nos ônibus, morarem em favelas e mortos por engano em blitzes…
Março 8th, 2004 at 2:15 pm
Mas será possível que na primeira vez na vida que eu entro neste blog há uma menção ao episódio da PUC? :-)
Pô, o cara que escreveu o artigo sobre gays (o Zé Roberto) não é gay não. Não que eu saiba. :-)