A hora do lodaçal

Dizer que tudo parece estranho é um puta lugar comum. E nem é isso. Tudo não parece estranho. Nada parece. Não consigo sair dessa cadeira, não consigo dormir, não consigo pensar e nem parar de pensar. Não consigo parar de ter começos de idéias. E os começos vão se amontoando e se jogando.
E parece que o resto da vida vai ser um amontoado de começos, de coisas abortadas sem chegar lá. Nem dormindo nem acordada. Morta de fome, sem a menor vontade de comer. Ouvindo o barulho dos relógios de dorreau no quarto, sentindo o nariz meio entupido e pingando vasoconstritor. São aquelas horas em que a vida da gente engasga. Que nem CD sujo antigamente. Ou disco arranhado, mais antigamente. O disco arranhado pequeno, amarelo com a história do Leão Cantor. E o leão não canta, a história não anda, mas não começa outra.
Eu tou no meio do arranhado do disco, no meio da noite, no meio da fome, no meio do quarto. No meio de coisas pela metade. Papéis colados, postits não obedecidos, canetas sem tampa, livros não lidos, coisas não arrumadas. Ar com cheiro de computador ligado há muito tempo. Presentes para entregar, filmes para revelar e tudo para ser feito. E tudo no caminho. E tudo meia boca. Uma foda pela metade. Aquela hora em que a foda desanda mas ninguém interrompe. Aquela hora em que o filme está chato mas vc não vai embora.
Bem naquele momento em que o texto tá ruim mas vc não coloca um ponto final. Minha bainha de mielina tá suja. Minhas idéias brigaram umas com as outras. Acho que preciso comer, antes que passe mal.

One Response to “A hora do lodaçal”

  1. Tu Tu Tu Says:

    Que foda mal dada!