Mais um
Ele achava que era fotógrafo. Além de (ou apesar de) fotógrafo, artista. Em algum lugar, tinha aquela certeza guardada. Tinha mais dinheiro guardado do que certeza, mas não queria cuidar da fábrica de papel da família. Essa era outra certeza, tão cambaleante como a primeira. Alfredo vivia assim, desde criança cambaleando entre certezas incompatíveis.
Ganhava mesada da família - bem mais dinheiro do que ganha um fotógrafo com vários anos de experiência. Se não achasse que era artista, seria mais um rapaz bochechudo de calça de pregas, camisa azul com gola branca. Soterrado em bens de consumo duráveis e não duráveis, uma mulher loira em casa ou na academia, muitas preocupações urgentes e nenhuma importante.
Se fosse artista, seria preciso trabalhar dias para pagar um dos jantares que janta hoje. Faria esforço para melhorar e para trabalhar de graça para gente boa. Teria, daqui a dez anos, o mesmo carro que tem hoje. Compararia os preços de sabão em pó no supermercado, teria uma mulher capaz de discordar dele e explicar por quê. E ele ia gostar de ouvir.
É uma pena que Alfredo tenha nascido rico. Justamente por não precisar, não consegue ser artista.
(e nem deixar de ser)