Perdido na tradução
Logo nos primeiros takes do filme dá para sentir aquele estranhamento clássico de quando se chega a outro país. Aquela sensação orgásmica atrás da qual as pessoas gastam o dinheiro que não têm só para se despencar até o outro lado do mundo. Só para estar lá um pouquinho, e ouvir outra língua, e ver tudo diferente daquele lugar onde vc passa todos os dias da sua vida.
Pois pode ter sido impressão minha, mas esse estranhamento do início não era aquele estranhamento “exciting” (a palavra em português, “excitação”, na minha opinião só se aplica a clitóris). Era um estranhamento de medo. De opressão. “Coisa de americano”, pensei. Torcendo para que o filme provasse que eu estava muito errada.
Mas eis que Charlotte, uma mulher culta e sem porra nenhuma para fazer o dia inteiro (no Japão! Aquele lugar para o qual a passagem de avião custa muito caro!), passa o dia no quarto do hotel fazendo ikebana e tricotando. Admito que fiquei com vontade de dar uns tabefes nela e mandar a mocinha curtir a fossa pelo menos andando na rua. Era o que eu fazia em Barcelona. Ficava triste, comprava muitos chocolates e engordava, mas andava para cima e para baixo - afinal, não viajo para longe para ficar trancada num quarto igual ao meu quarto brasileiro.
Depois as coisas ficam mais divertidas, eles vão a um karaokê, a boates, etc. Do resto do filme não preciso falar. Todo mundo já sabe que é bom, que é engraçado, que os silêncios nos diálogos são mais eloqüentes que os não-silêncios, que os atores são bons, que a Sofia Coppola disse a que veio, e que ela também assistiu “La Dolce Vita” legendado em japonês num quarto de hotel. E que a Sofia Coppola é a Charlote. Ou seja, dizer essas coisas é chover no molhado porque vc certamente já ouviu tudo isso por aí. Resumindo: o filme é muito bom, gostei.
Mas fiquei com a sincera impressão que histórias assim só podem acontecer com dois americanos. Um povo com alma de inquisidor (refiro-me à Inquisição, mesmo) que tem medo do que não entende. Medo não. Pânico. E uma certa arrogância que tive a impressão de ver em alguns diálogos com os japoneses.
Oquei, oquei. Americanos são legais. Japoneses são animais num zoológico. Não dê comida para os japoneses. Mantenha a janela do carro fechada. Amizade, só com gente, ou seja, americanos como você.
Janeiro 26th, 2004 at 1:14 pm
nossa, minha impressão foi completamente diferente da sua! acho que o que vc diz tem muito mais fundamento do que o que eu digo. é mais racional, sei lá. o que eu achei do filme está totalmente ligado à minha época de new yorker fajuta. lê lá no observacoes pra ver se vc me compreende… :)