Às vezes, no meio do dia, uma coisa (uma imagem, um cheiro) qualquer me desperta um clique que faz lembrar do que sonhei durante a noite. Lembrar não, sentir o sonho de novo. Uma memória da sensação. Não sei se isso acontece com todo mundo, comigo é sempre assim.

Pois hoje eu estava fazendo limonada, pensando que o melhor fazedor de limonada do mundo era o meu avô e que ainda não apareceu ninguém para substituir as limonadas dele. Faz dez anos que meu avô morreu, de algo que imaginamos que foi um ataque cardíaco, em casa, durante a final do jogo de futebol do qual a seleção saiu tetracampeã. Velório e enterro ao som das buzinas histéricas das pessoas, felizes sem saber muito bem por quê. Mas essa é outra história.

Enquanto fazia a tal limonada, me veio à cabeça o sonho da noite. Que o meu avô tinha voltado, que ele estava na sala, e que eu ficava chorando feito uma boba falando com ele enquanto os outros não entendiam nada. A cena se repetia várias vezes, cada vez de uma maneira. Uma hora eu levava um susto porque tinha alguém plantado no sofá (e depois o susto aumentava quando eu entendia quem estava lá). Lembro perfeitamente da roupa, dos óculos que ele usava.

E é estranho, sempre sonho com ele já morto, voltando. Aparecendo. Nos estados mais lamentáveis ou das maneiras mais naturais. Quando acordei, sabia que tinha sonhado alguma coisa meio forte, meio incômoda, mas não sabia o quê. Só fui lembrar mais tarde, quando nem lembrava mais que tinha esquecido alguma coisa.

E fico pensando. Ele foi a única pessoa realmente próxima de mim que morreu. Há 10 anos. Já passou tanto tempo, ele era o meu avô, é normal pessoas perderem avôs. Na verdade, eu tô no lucro de só ter perdido meus dois avôs na vida inteira. Mas po, que merda, se dez anos depois eu ainda fico sonhando com isso, não quero nem pensar como vai ser quando morrerem as outras pessoas. Dá pânico.

E é só isso. É muito estranho pensar que a gente vai ter que conviver sempre com a falta que certas pessoas fazem. Dores passam. E certas coisas não passam.

gases se expandindo

Se vc que achou q nada mais idiota podia acontecer desde que um celerado colocou dinamite dentro de uma baleia (“most amazing videos”), o que dizer que um cachalote de 17 metros que explode sozinho no meio da rua?


“Veículos e pessoas que andavam nas calçadas ficaram encharcados com sangue e fragmentos do corpo da baleia, que estava sendo transportada em um trailer.

Um especialista em biologia marinha atribuiu a explosão à pressão de gases formados no interior do mamífero quando ele começou a se decompor.”


A notícia é da BBC – ou seja, vem dos ingleses, povo cujo maior mérito é não se levar muito a sério. Menos o primeiro ministro, que até hoje acredita em armas de destruição em massa, nos duendes da xuxa, em coelhinho da páscoa e no Bush. Mas enfim… Prefiro não pensar nisso agora.

auto análise

Hhhmmm… Estou com a impressão de que esse blogue está começando a se levar a sério. Posts grandes, escritos em editores de texto e salvos várias vezes antes de serem finalmente jogados aqui. Nada contra textos bem feitos, ou contra a tentativa de fazer textos bem feitos.

Mas é melhor eu acertar o rumo antes que a coisa fuja do controle. O passo seguinte das pessoas que se levam a sério é a empáfia. E a partir daí, vai ficando cada vez mais difícil não se tornar um completo idiota.

Mais um

Ele achava que era fotógrafo. Além de (ou apesar de) fotógrafo, artista. Em algum lugar, tinha aquela certeza guardada. Tinha mais dinheiro guardado do que certeza, mas não queria cuidar da fábrica de papel da família. Essa era outra certeza, tão cambaleante como a primeira. Alfredo vivia assim, desde criança cambaleando entre certezas incompatíveis.

Ganhava mesada da família – bem mais dinheiro do que ganha um fotógrafo com vários anos de experiência. Se não achasse que era artista, seria mais um rapaz bochechudo de calça de pregas, camisa azul com gola branca. Soterrado em bens de consumo duráveis e não duráveis, uma mulher loira em casa ou na academia, muitas preocupações urgentes e nenhuma importante.

Se fosse artista, seria preciso trabalhar dias para pagar um dos jantares que janta hoje. Faria esforço para melhorar e para trabalhar de graça para gente boa. Teria, daqui a dez anos, o mesmo carro que tem hoje. Compararia os preços de sabão em pó no supermercado, teria uma mulher capaz de discordar dele e explicar por quê. E ele ia gostar de ouvir.

É uma pena que Alfredo tenha nascido rico. Justamente por não precisar, não consegue ser artista.
(e nem deixar de ser)

Só Jesus expulsa os Demônios da Garoa!

Meeeu, poucas coisas são mais deprimeeeiiiintes do que todo mundo tentando fazer odes a São Paulo. Chega a ser uma puta diversaum.

Na boa, eu gosto de São Paulo. Não sei se gostaria se morasse lá. Mas não descarto a hipótese. Agora, imagine que a capital do Acre (esqueci o nome, eu sou péssima em decorar capitais) estivesse fazendo aniversário. E agora imagine que quase todo o dinheiro do Brasil estivesse lá, nessa capital ignara. Agora imagine cariocas e paulistas babando o ovo dessa cidade, tentando achar maravilhas, charme e etc numa cidade sem maravilhas, charme e muito menos etc.

Pois é. É o que eu vejo, aqui da minha cidade suja, linda, charmosa, onde pessoas morrem como moscas na linha amarela, onde homens tomam bomba e mulheres usam saltos de 15 centímetros para aumentar as bundas já calipígias. Todos tentando casar com a princesa baranga. Porque é rica. Todos dando em cimna da filha burra e manca do milionário.

Fico aqui no meu canto e rio de todos eles. E penso em voltar a Sampa dia desses, para aproveitar as coisas legais que têm lá e comer massas bem melhores que as da minha terra.

PS: Gosto de Demônios da Garoa, Desde que ouvi “Tiro ao Álvaro” na trilha sonora de uma novela paulista (Cambalacho). Mas não gosto de garoa.

- Meu filho, a vida é isso mesmo. Você vai ter que matar um leão por dia, e é só isso. Por pior que seja, no dia seguinte vai ter outro leão esperando por você.
- Mas todos os dias?
- Alguns dias são dois leões. Às vezes mais, mas isso é bem raro.
- ?
- Só posso te garantir que não existem dias sem leões.
- ??

Mais do mesmo

O amigo Jaime Biaggio, d’O Globo, escreveu no Rio Show que é boooobo (assim mesmo, com um monte de “O”s) achar que “Encontros e Desencontros” é preconceituoso com os japoneses.

Discordo. É um pouco preconceituoso sim. Mas anyway, para mim o filme esculhamba muito mais com os próprios americanos, ao mostrar a estreiteza deles em qualquer lugar minimamente diferente do MacDonalds e do Superbowl.

Em Shirley Valentine, ela, inglesa que é, olha com superioridade para todos os americanos babacas que vão à Grécia para comer hambúrguer (ou bife com fritas, não lembro agora). Em vez de ficar puta da vida, como os gregos, ela olha para eles de cima a baixo e cobra caro pela comida. Afinal, veio até aqui comer o que tem na sua terra? Então to-to-toma!

Perdido na tradução

Logo nos primeiros takes do filme dá para sentir aquele estranhamento clássico de quando se chega a outro país. Aquela sensação orgásmica atrás da qual as pessoas gastam o dinheiro que não têm só para se despencar até o outro lado do mundo. Só para estar lá um pouquinho, e ouvir outra língua, e ver tudo diferente daquele lugar onde vc passa todos os dias da sua vida.

Pois pode ter sido impressão minha, mas esse estranhamento do início não era aquele estranhamento “exciting” (a palavra em português, “excitação”, na minha opinião só se aplica a clitóris). Era um estranhamento de medo. De opressão. “Coisa de americano”, pensei. Torcendo para que o filme provasse que eu estava muito errada.

Mas eis que Charlotte, uma mulher culta e sem porra nenhuma para fazer o dia inteiro (no Japão! Aquele lugar para o qual a passagem de avião custa muito caro!), passa o dia no quarto do hotel fazendo ikebana e tricotando. Admito que fiquei com vontade de dar uns tabefes nela e mandar a mocinha curtir a fossa pelo menos andando na rua. Era o que eu fazia em Barcelona. Ficava triste, comprava muitos chocolates e engordava, mas andava para cima e para baixo – afinal, não viajo para longe para ficar trancada num quarto igual ao meu quarto brasileiro.

Depois as coisas ficam mais divertidas, eles vão a um karaokê, a boates, etc. Do resto do filme não preciso falar. Todo mundo já sabe que é bom, que é engraçado, que os silêncios nos diálogos são mais eloqüentes que os não-silêncios, que os atores são bons, que a Sofia Coppola disse a que veio, e que ela também assistiu “La Dolce Vita” legendado em japonês num quarto de hotel. E que a Sofia Coppola é a Charlote. Ou seja, dizer essas coisas é chover no molhado porque vc certamente já ouviu tudo isso por aí. Resumindo: o filme é muito bom, gostei.

Mas fiquei com a sincera impressão que histórias assim só podem acontecer com dois americanos. Um povo com alma de inquisidor (refiro-me à Inquisição, mesmo) que tem medo do que não entende. Medo não. Pânico. E uma certa arrogância que tive a impressão de ver em alguns diálogos com os japoneses.

Oquei, oquei. Americanos são legais. Japoneses são animais num zoológico. Não dê comida para os japoneses. Mantenha a janela do carro fechada. Amizade, só com gente, ou seja, americanos como você.

Cinema!

Pessoas que namoram os receptáculos doos corações de seus amados é tema que já foi usado até pela autora mais apelativa do mundo, a Gloria Perez, em uma novela de 1992, “De Corpo e Alma”. Na época, achei uma babaquice sem tamanho o Tarcisio Meira namorar a Cristiana Oliveira só pq ela estava carregando o coração da namorada dele – que, se não me engano, era a Bruna Lombardi, que veio ao Brasil, gravou meia dúzia de cenas e voltou para a terra dela (?!), voltando só para um ou outro flash back safado.

Pois é, e 12 anos depois paguei 13 reais e peguei fila no cinema para ver a mesma história de novo, só que com atores melhores.

Tudo começou em 2001, quando vi “Amores Perros” e gostei. Por isso fui com toda boa vontade ver “21 Gramas”, do mesmo diretor e ultra elogiado por todo mundo.

Bom, na verdade trata-se de uma refilmagem no filme mexicano. Não é bem uma refilmagem, mas também não é outro filme. É uma semi-refilmagem (se isso não existe invento agora), mas sem as cores fortes da versão latina. Digo isso no sentido figurado, com atuações mais contidas, e no sentido literal também. A fotografia é lavada, as imagens quase que só têm azul, fica tudo meio frio. E uma montagem em pedacinhos, não-linear. Lembrou de “Amnésia”? Exatamente: o filme andava de trás para frente para que a gente conseguisse se sentir tão perdido quanto o próprio personagem. Ou seja, a montagem modernosa tinha um objetivo. Ness caso, a montagem não tem objetivo nenhum. E, como eu já disse: história contada em pedacinhos e que se encontra em um acidente de carro, já vi em “Amores Perros”.

Na hora em que eu pensava essas coisas, todas as pessoas no cinema ao meu redor começaram a engolir seus catarros. E a tossir. Eu me perguntava por que chatos tossem, enquanto via o filme não chegar a lugar algum. E não chegou. Ou chegou. À conclusão de que o mundo dá voltas e a gente não pode nunca cuspir para cima. E descobri mais uma coisa: que quando a crítica diz que um diretor está amadurecendo, tenho que levar a sério a possibilidade de ele estar perdendo o vigor e se transformando numa cópia hollywoodiana de si mesmo. Se diluindo. Pelo menos é isso que eu acho do Almdóvar, e agora do Iñarritu. Almodovar deixou de fazer filmes fortes, coloridos, latinos, para fazer coisas boas muito parecidas com coisas que outras pessoas fazem. Eu sou latina, caramba! E espero continuar latina! Mais zen e menos escandalosa, mas espero realmente nunca virar uma fotografia lavada que nem “21 Gramas”.