Esse artigo é meio longo, mas vale a pena. Pensei em traduzir, mas acabei desanimando. Se alguém precisar de tradução, me avise que eu tomo coragem e faço.
A história virou filme em 81, virou livro e o caramba. Com certeza quem é um pouquinho mais velho que eu vai lembrar. Eu fiquei sabendo agora.
Para quem não conhece, trata-se de um professor de História na Califórnia que, em 1967, resolveu fazer uma experiência com seus alunos para:
1 – descobrir por que raios as pessoas na Alemanha nazista se deixaram levar pela filosofia fascista e seguiram Hitler cegamente
2 – saber se esse tipo de coisa poderia acontecer de novo
Bom, em uma semana ele descobriu que sim, podia acontecer de novo, numa escola em Palo Alto. Ou seja, poderia acontecer em qualquer lugar. A história toda, em detalhes, está no artigo principal e nos links a seguir:
- o filme
- um site inteiro sobre o assunto
- artigo “A dangerous experiment”
Uma questão que fica óbvia com essa experiência é o quanto as pessoas precisam de regras claras. Como elas querem se sentir parte de alguma coisa, querem saber a quem seguir. Não é à toa que religiões – velhas, novas, seitas, grupos – crescem como tumores. Eu gostaria muito de seguir alguma coisa. Colocar em alguém a responsabilidade de me fazer feliz e ter uma boa vida. Confiar em alguém completamente. Ter um guru. Ter em que acreditar, não ter dúvidas.
Uma vez escrevi sobre o excesso de opções. No caso eu citava que quando temos um estacionamento vazio, sempre estacionamos mal, ou entre duas vagas, e precisamos dar ré e escolher uma vaga só. E ainda ficamos na dúvida se aquele era o melhor lugar para parar, se devíamos ter estacionado mais perto da saída. Ou mais perto da entrada. Quando existe UMA vaga, acertamos de primeira, estacionamos tranquilos e vamos embora sem olhar para trás.
Dizer que vivemos um período de transições é o maior dos clichês. E é um clichê verdadeiro apenas em parte. Não acho que estamos em transição. Estamos em várias transições, e esse vai ser nosso padrão daqui para a frente. A transição é a ordem.
O papel de cada um não é mais definido. Mulheres e homens já foram totalmente diferentes, depois se disseram iguais (digo, as mulheres gritaram, tão alto que os homens não puderam falar nada até o grito baixar) e agora estamos todos percebendo que somos completamente diferentes, mas ninguém é superior a ninguém.
Uma mulher tinha que se manter virgem e depois fiel. Depois o certo era ter o máximo de experiências. E agora? Tem casal que passa vida monogâmico. Tem casal em que ele fica com todo mundo e ela não. Tem casal que é liberado para ficar com todo mundo, desde que conte. Tem casal que não conta. Tem casal que nem trepa mais. E todo mundo que estiver feliz com isso está certo.
Você pode se formar na faculdade e fazer concurso e ter um emprego para a vida inteira. Vc pode achar isso uma merda. Eu realmente às vezes sinto muita vontade de virar budista. Ou comunista. Ou panssexual. Ou sadomasoquista. Evangélica, cientologista, patricinha, escritora maldita, alcólatra, fazer parte de um grupo de jovens e me crismar e ficar cantando “derrama senhor” no aniversário dos outros. Qualquer coisa que faça eu me enquadrar em alguma definição, ser parte de alguma coisa, saber o que fazer e o que não fazer, deixar que alguém pense por mim, decida por mim.
Mas isso não depende só da vontade de cada um. Certas pessoas cabem nisso. Outras pessoas não vão ter paz. E isso não é mérito. É só que as pessoas que não têm paz resolveram, pelo menos, ter um pouco de glamour. E souberam vender lindamente a imagem de atormentados. Mas isso é uma outra história.
No texto, o professor explica como foram justamente os alunos digamos, menos brilhantes, os que se sentiram mais confortáveis fazendo parte da Terceira Onda. Ou seja, o conforto das regras claras e definidasIsso não funciona para todos, mas funciona para quase todos. Uma vez conheci uma menina de Moscou e perguntei a ela o que as pessoas lá pensavam do comunismo. Ela me explicou que uma minoria não gostava, pois queria crescer mais do que o regime permitia. Mas que para a maioria da população, era bom, e bem aceito.
No caso da Califórnia, os melhores alunos da turma não gostaram nada de perder seu posto de “superiores”, e tinham uma atitude questionadora (ou pelo menos pouco entusiasmada) a respeito da Terceira Onda.
No fundo, a terceira onda tem muito a ver com “Admirável Mundo Novo”, que até hoje é a melhor descrição que já vi do mundo em que eu vivo. Falo sobre isso outro dia. Enquanto isso, vc pode baixar (ou ler) o livro inteiro (em inglês) aqui.