A Lista

Se você se acha no direito de se intitular um ser pensante mós moderno, você tem sua lista de “to do”, não tem? Se você não tem, disfarce, corra e produza uma o mais rápido possível. Afinal, este é o mecanismo que permite que você estenda ao mundo dos desejos inconfessáveis a suprema e onipresente sensação da frustração.
Você recebe todos os dias uma quantidade de informações muito maior do que pode processar. Vê propagandas de coisas que jamais poderá comprar. A lista de “to do” é simplesmente uma maneira de fazer com que nossos desejos secretos e inconfessáveis não escapem dessa nobre regra: a da frustração inexorável, pois mais inexorável do que a morte é a frustração que vem antes da morte. A cada minuto antes da morte, começando… Hhhmmm, eu já comecei a ficar frustrada faz uns… 25 anos.
Bom: trata-se de uma lista de coisas que você precisa fazer antes de morrer. Ou seja, uma fonte garantida, pessoal e intransferível de frustração, mas uma frustração genuína, só sua. Afinal, só você sabe dela. Ou algumas amigas mais íntimas, mas não muito mais do que isso, porque senão vira palhaçada.
Exemplos de itens numa lista de “to do”: fazer um vôo duplo de asa delta, fazer sexo a três, experimentar carne de rã. Mas você precisa realmente acreditar que vai cumpri-la. Eu tenho uma lista de “to do” e realmente acredito nela.
Do fundo do meu coração.
Tenho fé nela e em mim e no fato de que nenhum daqueles itens ficará sem um glorioso xiszinho no dia da minha morte.
Agora, digamos que você tenha sua lista. Não importa se ela foi passada a limpo, impressa e plastificada ou está sempre recebendo novos itens. Ela é composta por coisas perfeitamente naturais, top dez de uma lista dessas, como aprender a fazer papo de anjo, pilotar uma lancha, transar sem camisinha, tomar chá de cogumelo, participar de uma suruba, fazer sexo com quatro anões besuntados, assistir um ritual wicca, fazer o caminho de santiago de walk machine, cantar “bem que se quis” num karaokê e fazer ponto de cruz.
E você se casa. Casou, tudo lindo maravilhoso (talvez se casar também estivesse na sua lista de to do, talvez não), é o homem da sua vida, você realmente pretende passar a vida inteira com ele e ter oito filhos… Pretende não. Você vai passar! E fim de papo morte lenta e dolorosa a quem questionar isso!!!
Problema um: a lista de “to do” dele é totalmente incompatível com a sua.
Problema dois, bem mais grave: ele já está muito na sua frente na lista dele. Basicamente sobraram uns dois ou três que você não tem nem coragem de falar em voz alta. Ou pior: sobrou um item como: passar o resto da vida fazendo papai e mamãe, o que te dá ainda mais pavor.
E agora? Quase todas aquelas coisas que você queria fazer e estava tomando coragem ele já fez, e fez questão de te dizer que não foram tão legais assim, como se isso fosse suficiente para fazer você perder a vontade/curiosidade. E claro, ele não vai mais te amar se te vir cantando “bem que se quis”, bêbada, num karaokê.

Casos assim me levam a pensar que listas de “to do” funcionam bem para pessoas sozinhas. Para pessoas em casamentos ruins. Para pessoas em casamentos abertos ou que não têm aquela esperança vã de que essa seja a última pessoa da sua vida (e que deixam a lista on hold esperando aquele momento depois que um casamento termina e antes de o próximo começar). Ou para pessoas que, antes de começarem a namorar, chequem a lista do outro. Acho que essa é a melhor hipótese.

One Response to “A Lista”

  1. Inagaki Says:

    Ah, listas. Quero pular de pára-quedas, namorar uma ruiva, visitar a Sagrada Família de Gaudí, escrever um livro do qual não me envergonhe depois de dez anos, ter dinheiro suficiente para comprar a edição limitada de "Kind of Blue" do Miles Davis sem ter peso na consciência, passar a levar a sério essas listas que faço, etc etc… Mas olha, uma coisa eu devo dizer: não me importaria nem um pouco de ver minha amada cantando "Bem Que Se Quis" num karaokê, mesmo porque eu já tive a pachorra de cantar "Depois do Prazer" e "Desculpe Mas Eu Vou Chorar", e, pior, completamente sóbrio…