2004

Como ainda acontece de encontrar amigos que perguntam como foi meu reveillon, segue uma breve descrição do que andei fazendo nos meus últimos segundos de 2003. Agora, sempre que alguém me perguntar como foi o reveillon, bastará que eu dê um copipeiste e envie a descrição abaixo. Isso se aplica porque na maior parte das vezes, quando digo “encontrar” alguém, me refiro a fazê-lo na internet, enquanto ouço o vento assobiar nessa estepe distante e modorrenta onde moro.

Pois bem:

Cena 1. Eu, com essa minha cara de brasileira, e dois japoneses, um de cabelos arrepiados com gel e camisa Puma, outro com colar de argentino e a indefectível combinação papete-calçacapri-camisaestampada, tentando pegar um táxi para Copacabana. Muito surpresos porque os taxistas pediam valores extorsivos, como 40 reais, pela corrida. Até que encontramos uma boa alma que nos cobrou o preço justo de 15 reais e nos fez entender que, caceta, como a gente podia querer que alguém adivinhasse que éramos cariocas??????
Boa pergunta.

Cena 2. O táxi estava realmente quente. O trânsito, engarrafado. O japonês à minha direita, que já tinha tomado alguns vários uísques, tentava se movimentar o mínimo possível, para não ficar com mais calor e quem sabe passar mal. Percebi que ele respirava uma vez por minuto, mas não podia fazer nada porque…

…o japonês à minha esquerda estava conversando com o motorista. Mas o motorista estava longe e meu ouvido perto. Bem perto.

No meio das minhas elocubrações sobre o calor do inferno que fazia, ouço:
Motorista: - Pois é, o velhinho está mal, né? Na UTI…
Eu, distraída: - Quem?
Motorista: - O velhinho, não sabia?
Eu, já curiosa: - Quem?
Motorista: - 2003, hahaha!!!

Boa. Minha noite começou com uma excelente piada de taxista. Ele nos deixou em Copa e partiu para Inhaúma, para passar a meia noite com a patroa e os filhos (cujas fotos nos mostrou) e explicou que lá também tem fogos, mas dos tiros de balas traçantes que a galera do morro dá para comemorar. O “japonês à esquerda”, enquanto isso, decidia que no ano novo vai começar oficialmente sua campanha para vereador - informalmente ele está em campanha há uns 15 anos.

Cena 3. Elevador. Leandro distribuiu garrafas de Prosecco para levarmos para o dono da festa. Me pergunto se devemos levar presentes para um anfitrião que cobra 70 reais por cabeça. Dentro do elevador, um casal gay lê o título “extra dry” nos rótulos de nossas garrafas. Um deles nos explica que se trata de um “proseco-seco-seco!”. O outro acrescenta: “é uma redundância pleonástica!!!”. E saem do elevador no sétimo andar. Bom, se lá na cobertura não estiver muito legal, a gente pode descer para a festa deles, que com certeza vai estar divertida.

Cena 4. Cobertura na Atlântica, festa cheia de coroas. Clima light. Casais com quarenta anos de matrimônio se divertiam e eu questionava se um dia vou ficar como aquelas mulheres, enrugada, cheia de brilhos, dançando YMCA no reveillon. Espero que sim.

Meia noite.

Fogos. Fogos. Fogos. Fogos. Fogos. Fogos. Fogos. Fogos. Fogos. Fogos. Fogos. Fogos. Fogos. Fogos. Fogos. Fogos. Fogos. Fogos.
Mais fogos.
Fogos de Botafogo, lá atrás do morro.
Fogos do Meridien.
Fogos do Forte de Copacabana.
Fogos, fogos, fogos.

Vinte minutos de fogos. E depois de anos achando um saco aquela esporreira, um monte de explosões iguais umas às outras, e muita fumaça - muita mesmo, descobri uma coisa importante. Os fogos foram feitos para serem vistos de uma altura de no mínimo, doze andares. E não pela turba no chão.

Pois esse ano gostei dos fogos.

Cena 4. Sofá. Mulher chegando no meu amigo. Salada de camarão, ravioli, prosecco. Frank Sinatra. Cidade maravilhosa. Festa de coroa acaba cedo.

Cena 5. Sentada na areia do posto 9, cercada por mini posers baixo-gavea-puc e muita gente fazendo xixi, eu havia já pulado minhas sete ondinhas e morria de frio por causa da calça jeans molhada até o joelho. Mau humor. Sono. Nada é mais mocorongo do que passar o reveillon de amarelo, rosa ou vermelho, mostrando para todo mundo que vc precisa de grana, amor ou paixão. E às vezes o vestido vermelho é tão matador que não é mais uma macumba para arrumar uma paixão. É uma ordem, quase uma ameaça a Santo Antônio ou ao orixá que arruma namorados (que eu não tenho idéia de quem seja)! Fiquei imaginando que se os caras do “Queer Eye” estivessem ali, gritariam: “Meninas, mantenham a pose!!! Pobres, vcs não entendem que pior do que ser pobre é parecer pobre? Ai meu deus!”

Abortado o café da manhã na cobertura do hotel Everest. Casa. Cama. Boa noite.

2 Responses to “2004”

  1. sergio Says:

    o meu reveillion foi tão massa que eu não lembro de nada depois de ter tomado uma caixa de cervejas antes da meia-noite, espumante na virada e vinho logo em seguida. Me disseram que eu tomei gin e rum depois disso, mas eu não lembro… Mas não duvido, dada a ressaca e dor de cabeça do dia seguinte… Nada que um quarto escuro e um ar-condicionado não resolvam…

  2. bruna Says:

    vou usar a piada do taxista para 2004
    hahahhah